Pe. Luiz Eustáquio desenvolve há anos duas iniciativas quinzenais no Centro Loyola de Espiritualidade e Fé (www.centroloyola.org.br), a saber, um grupo terapêutico  de Bionergética e um grupo meditativo de interiorização espiritual, com um enfoque macroecumênico.   Novos alunos são admitidos no início de cada semestre. 

 

Para saber mais sobre a Análise Bioenergética, segue abaixo um texto esclarecedor.

 

 

 

 

INTRODUÇÃO À BIOENERGÉTICA

 

Elizabeth Rablen, M.D.

 

 

A Análise Bioenergética é um modo único de combinar a terapia do corpo com a psicoterapia. O conceito integrador é aquele de que o corpo e a mente formam uma unidade. Somos nosso pensamento, emoções, sensações, impulsos e ações. Sigmund Freud é o fundador da psicanálise. Nasceu em Viena no ano de 1856, onde estudou medicina e neurologia e pode explorar novas formas de aconselhamento junto a seus pacientes. Morreu em 1939 em Londres, Inglaterra, tendo se mudado para lá em 1938.

 

No tempo de Freud, as pessoas padeciam uma série de doenças para as quais não havia se encontrado causas médicas: paralisias, ataques epilépticos, cegueira, perda de memória ou de sensação de partes do corpo etc. Freud descobriu que estes sintomas eram uma expressão corporal de memórias reprimidas da dor e do medo de algumas experiências infantis. Ajudando seus pacientes a relembrar e reviver estas experiências, Freud pode curar-lhes os sintomas. Denominou o seu método de psicanálise. Uma vez que os pacientes tornavam-se conscientes do que havia lhes sucedido na infância, não mais necessitavam de expressar suas memórias através de sintomas corporais. Para extrair estas memórias da repressão, Freud utilizou-se dos sonhos de seus pacientes, das escorregadelas da língua [ato falho], das associações livres e das manifestações de transferência.

 

A transferência descreve uma condição em que a pessoa vê alguns de seus relacionamentos interpessoais adultos através das lentes de suas experiências infantis. Em outras palavras, ela experiencia o seu parceiro, os filhos, o patrão ou mesmo o terapeuta não inteiramente como eles são. Ao contrário, percebe-os como se fossem os pais que a rejeitaram, ignoraram, criticaram ou humilharam.  Transfere as memórias reprimidas do que lhe fizeram no passado para as pessoas de sua vida atual.

 

Wilhelm Reich, que viveu de 1897 a 1957, foi paciente e aluno de Sigmund Freud. Enquanto Freud se ocupava apenas da produção verbal de seus pacientes, Reich trouxe à psicanálise a observação do corpo, tal como as expressões dos olhos e do rosto, a qualidade da voz e os padrões de tensão muscular. O que hoje cognominamos “linguagem do corpo” foi primeiramente descrito por ele. Assim como Freud observou um corte ou divisão entre a memória consciente e a insconsciente, Reich percebeu uma divisão nas expressões do corpo. Por exemplo, uma pessoa pode sorrir não dando-se conta de que seu rosto se mostra triste. Alguém pode dizer amáveis palavras sem saber que seus olhos se apresentam ressentidos ou que seus maxilares se projetam expressando malícia.

 

À medida em que seus pacientes progrediam na psicoterapia, Reich observava que suas tensões musculares também se modificavam. Ombros e braços depressivos tornavam-se menos tensos, os maxilares mais relaxados, os dentes não mais trancafiados. A razão pela qual o paciente refreou seu impulso de buscar e alcançar, reprimindo suas sofridas memórias, era, primeiramente, para prevenir-se da própria vulnerabilidade. Mas com o relaxamento das tensões musculares cronificadas, o paciente  voltava a ser vulnerável. Através de seu maxilar saliente e dos dentes trancafiados adotara uma expressão corporal que denunciava a sua indisposição para o encontro por temer ser machucado novamente.

 

Reich tentou relaxar a tensão crônica dos músculos de seus pacientes pressionando-os diretamente. Descobriu que funcionava. Resultado: fortes emoções e memórias doloridas há muito encobertas vinham à tona com frequência. A unidade entre corpo, mente e emoção se fazia clara. Reich também observou que as pessoas começavam a se mostrar mais vivas, sua pele mais rosada, sua voz mais cheia e forte, os movimentos mais graciosos e fluidos, os olhos mais brilhantes. Era como se tivessem mais energia. De fato elas possuíam aquilo que Reich veio chamar de  “energia organísmica” ou “orgone”.

 

Dr. Alexander Lowen, paciente e aluno de Wilhelm Reich, denominou esta energia orgone de “bioenergia”. Lowen, ainda ativo na idade de 88 anos, ampliou a planilha do trabalho corporal introduzindo o para-casa bioenergético. Ao invés de apenas pressionar os músculos cronicamente tensos, fez também uso de algumas posições estressantes que permitiriam a liberação do fluxo energético. Evidência deste relaxamento poderia ser um tremor ou sutil vibração dos músculos. Lowen pode realmente constatar os bloqueios da energia causados pelas tensões musculares cronificadas. Exemplo disso seria o aperto crônico do diafragma, interrompendo a onda respiratória e produzindo uma respiração bem superficial. A consequente redução de inalação de oxigênio provoca a diminuição do nível de energia da pessoa. Tal respiração superficial é uma das maneiras pelas quais mantemos controladas nossas emoções. Para ajudar as pessoas a respirarem mais profundamente, Dr. Lowen desenvolveu um equipamento conhecido como “stool”.

 

Uma importante descoberta provinda de sua observação é que a pessoa cujo fluxo energético encontra-se bloqueado perdeu uma parte de sua vitalidade e personalidade. Esta perda é que faz com que ela esteja deprimida, necessitando de muito esforço para cumprir suas tarefas diárias. Torna-se, então, difícil se aproximar dos outros e sentir o prazer. A vida perde o seu colorido e se mostra tediosa. “Grounding” (enraizamento), outro conceito criado por Lowen, descreve o contato energético com a realidade. Com vistas a um bom contato energético é necessário que a energia flua livremente para aquelas áreas de nosso corpo através das quais fazemos contato com o mundo: os órgãos sensoriais, os braços e as mãos, pernas e pés, a pele e as áreas sexuais. Observe um bebê ou uma criancinha que chora, que está raivosa ou feliz ou que procura alcançar alguma coisa. Todo o seu corpo participa do que faz e seus movimentos são verdadeiramente harmoniosos. A pessoa que está bem enraizada (grounded) é dita como tendo “seus pés no chão”. Ela sente a conexão entre seus pés e o chão em que se sustenta.

 

À medida em que vamos crescendo, sentimos como algumas de nossas expressões emocionais mais espontâneas recebem variadas formas de desaprovação, rejeição, humilhação ou punição. A partir de então aprendemos a controlar as expressões que incorrem em consequências. Passamos permanente- mente a inibir os músculos envolvidos nessas expressões mediante uma tensão crônica e inconsciente.

 

Bloqueios na garganta e na mandíbula reprimem nosso choro e nosso berro; também inibem o nosso grito ou canto de felicidade. Bloqueios nos ombros e nos braços reprimem não somente nosso desejo de agarrar e bater como também de alcançar e abraçar. Bloqueios na cintura reprimem nosso choro e grito, assim como nossa respiração e suspiro. Músculos das pernas e dos pés apertados freiam nossa rebeldia; também fazem decrescer a capacidade de permanecermo-nos no próprio chão e de sermos independentes.

 

Há muitos músculos que interligam a cinta pélvica com o tronco e as pernas, tais como os lombares, as nádegas e as coxas. Existem também os músculos que formam o soalho pélvico. Todos eles estão envolvidos no controle de nossas funções sexual e excretora. Uma tensão crônica ali embota nossa sexualidade e ocasiona muitas vezes lombalgia e urinação constante.

 

Dr. Lowen fez ainda outra descoberta, talvez a sua mais importante: quanto mais mantivermos a ilusão de que podemos obter enquanto adultos aquilo que não conseguimos quando crianças e que isso resolveria nossa depressão, tanto mais estaremos fadados ao fracasso. Nenhuma aceitação e amor, sejam eles do terapeuta ou do parceiro, poderão suprir a carência de não termos sido reconhecidos e estimados naquilo que éramos quando criança. Porque tivemos que bloquear permanentemente certas expressões inaceitáveis  de nosso self, continuamos hoje anelando a experiência de sermos aceitos naquilo que somos. Por que os nossos pais não nos aceitaram quando éramos livres e amorosos? Inconscientemente, guardamos uma raiva justificada em relação a isso.

 

Permitir que estes bloqueios se dissolvam não é nada fácil. Acreditamos que  eles nos salvam do abandono e da terrível solidão que resultaria dessa dissolução. Através do trabalho corporal podemos suavizar os bloqueios e reavivar o desejo do amor aceitador como também a terrível tristeza de esperar em vão. Através do "grounding" e de um corpo energizado é possível vivermos em nossa realidade adulta, sem nos deixar iludir pelo desejo de preenchimento de nossa carência infantil. Em terapia isso é sentido como uma escolha entre ser eu mesmo, livre e só, ou estar amuletado no terapeuta e no seu amor.

 

Esta intrincada combinação de trabalho corporal e psicanalítico constitui a essência da Análise Bioenergética.

 

 

 

(Artigo traduzido do inglês por Luiz Eustáquio S. Nogueira de um Boletim do IIBA de 1999)